eu sou a viscondessa

"- Ammu, quando se está feliz num sonho, isso conta?"

                                                  Arundhati Roy

O dia mais longo

O despertador tocou à hora marcada mas, em vez de despertar, deu aval para despedir o lençol branco bordado e o cobertor castanho terra. Estava acordada fazia tempo, não sabia bem quanto tempo, tinha-se proibido de olhar para a luz cega do ecrã, e em vez de minutos contava respirações, que atrasava para que o coração não acelerasse sem ordem, guardando a esperança vã que uma inspiração profunda, de dez em dez, aliciasse o afamado João Pestana.

Não sabia se era quarta ou quinta-feira, mas tinha a crença que o cansaço havia de vencer e colar-lhe as pálpebras uma noite destas, idealmente entre sexta e domingo. Assim, ergueu o tronco e agradeceu não ter sucumbido na almofada a meio da semana.

Tirou a roupa desalinhada e lavou os ossos mascarados de pele para aquilo que devia ser mais um dia, em vez de ser apenas mais uma sequência de rotinas que separam quadrados num calendário.

São os dias definidos por horas que passam, por adormeceres noturnos ou por repetição de hábitos?

Sempre tivera estas perguntas na cabeça. Quando falava das noites de conversas infindáveis e bem regadas referia-se sempre ao dia em que o ajuntamento se dera, passasse o evento da hora da Cinderela ou não.

Neste momento, não sabia se conseguia clareza de pensamento para explanar estas questões que lhe povoavam a mente, quanto mais as rodas do relógio “tiquetavam” mais as ideias se confundiam. O dia tinha já muitas voltas das rodas do círculo e ela desequilibrava-se, e desfocava-se, e sentia-se a rodopiar, sem conseguir fixar um ponto de referência.
Não sabe bem como é que o tempo passava demorado e, ao mesmo tempo, lhe fugia, lhe batia, e a enterrava, e quando se rendia, a puxava e levantava com um beijo de “preciso de ti aqui”.
Tinha o tempo e o dia encarcerados no peito e, de lágrimas nas fontes, afogava palavras, distorcia discursos e perdia o rumo.

Quando acordou, noutro dia qualquer, transformou o maior dia da sua vida na sua mais pequena história de amor. 

Um Anjo à minha mesa

Nunca percebi porque é que aqui faz sempre vento, é como se no topo das cinco ruas que desembocam neste largo de calçada branco sujo, existisse uma janela aberta e de lá viessem ventos de norte, que competem em intensidade e bravura. Deve ser por isso que as casas aqui têm duas ou três portas antes de se conseguir chegar para descalçar sapatos. Para fazer
de conta que o turbilhão da rua não existe.
Fecham-se as portas e as janelas e vive-se no ar parado de um lar ameno,
confortante,
aconchegante,
apertado,
asmático,
pesado,
não vá voarem cortinados, almofadas e toalhas de mesa.

Ao jantar, com paredes calafetadas, silenciam-se aragens que nos entraram à chegada, dá-se voz à personagem perfeita de mais um episódio, que se segue com a atenção que devíamos dar à nossa vida, sorrimos e sonhamos com a vida que alguém inventou, que nos cria modelos que não nos satisfazem.

Antes de anteontem, esqueci-me que tinha esta silicone cola juntas e, inconsequente, abri a janela da sala, a que dá para o largo de calçada branco sujo, inclinei-me e deixei a curiosidade espreitar as ruas, respirei fundo e achei que nunca tinha sido tão bom deixar entrar o ar para dentro de mim, o que me atingia não era uma corrente apressada e caótica, nem a morte lenta do ar parado, era força que me puxava os cabelos para dentro de casa com a firmeza de quem segura, para que eu pudesse fechar os olhos sem medo de me desequilibrar.

Tocou o temporizador do forno que aquecia um tabuleiro sem graça, de uma comida tirada ao acaso do congelador, fechei apressada as pesadas vidraças e delas ouvi um grito de dor que fez o sol esconder-se, que apagou todas as luzes e, com o coração a bater-me nas palmas dos pés, fui entre as rachas do chão, em pontas, tirar o jantar do forno, servir a água, ligar a TV, chamar para a mesa.

Sentei-me no lugar de sempre, as mãos não obedeciam ao de sempre, a fome que de dia para dia era menos, tinha sido levada… tanto cuidado com portas e depois fazem janelas que abrem!

A mesa era pequena, não havia espaço para mais ninguém, mal cabia quem lá se sentava, a água tremia, os olhos fechavam-se, os cabelos continuavam firmes afastados da cara, e sentia o sorriso que tinha visto em mim naquela fuga proibida.
Aquele vento que deixei entrar sentou-se na cadeira ao canto da sala, do quarto, da mesa onde mal cabia quem lá se
sentava!

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