Vida Alheia

Uma criança brinca com um carrinho quando ouve um latido que a faz levantar os joelhos da lama. Aquela reacção despertou-me a curiosidade de janela. De pescoço esticado senti-a desejar ter mais uns centímetros. O latido parecia mais perto e ela começou a andar em direcção ao muro sujo.

Não via cão nenhum, também não fui procurar. Sempre me entretive com a vida dos outros. Conhecia a Ema daquele quintal, sabia que gostava de carrinhos e cães. Quem eu já não via há tempo era o Lord. Mas pelos vistos ouvia-o agora.

Cada vez mais perto do muro, conseguia ver-lhe o olhar esperançoso a degladiar-se com o sorriso nervoso. Podia ajudá-la, mas iria perder a panorâmica do momento.
Ema começou a coçar a lama dos joelhos e largou desinteressadamente o carrinho. Espreitou pela porta.  Agora que a vejo do lado de cá do muro sujo, adivinho que tenha uns 4 anos, com essa idade já se sabe identificar latidos.

Espero que ela não se afaste muito, se vira a esquina deixo de a ver. O Lord bem podia lembrar-se do caminho, pensava que os cães faziam isso. Não tarda perco o encontro. Será que a Ema se perde?
Os latidos mais sonoros fazem-na começar a correr e chamar o Lord…

Porra!!!!
Um carro ao fundo da rua. Vou-lhe mandar um berro, vou descer, vou perder o acontecimento, vou esconder-me no cortinado. Dei um pulo, soltei eu um latido, o estrondo foi enorme!

Não resisto, fico a ver os vizinhos aos berros, estou a tentar perceber se ainda se ouve o Lord, mas as sirenes abafam qualquer som. Não vou descer, não posso ajudar! Vou resguardar-me para não me chatearem com perguntas. Consigo ver pelas frestas dos estores.

Calou-se o latido, a Ema e as sirenes.
Vou descansar, amanhã é outro dia.