Lote 22

Ozzy e Nina eram dois Cavalier King Charles Spaniel, cheios de pedigree e doçura no olhar, na pose e no pelo. Eram dois exemplares de boa educação, nunca ninguém no prédio os tinha ouvido ladrar. Verdade ou não, todos os vizinhos concordavam que de simpatia ganhavam aos pontos o Professor Aníbal de Azevedo, ser matemático, esguio, recto e sisudo que, em dias de chuva, transportava ao colo Ozzy e Nina escada a cima até ao 3º andar. Último piso com terraço e vista privilegiada para as muralhas. Era presença assídua e silenciosa nas reuniões mensais do condomínio, tinha o poder de comunicar com as sobrancelhas e deixar toda a gente sem a mínima dúvida da sua opinião.

Em contraste, Mariazinha, uma caniche branco sujo, acordava toda a gente em noites de vento e chuva, se existisse quem gostasse de intempéries como embalo, de certo não podia viver ali por perto. Tinha a educação de uma vendedora da feira, barulhenta, desafiadora mas sempre atrás da bancada. Dividia o 2º piso com a Dona Augustinha, reformada mas bem posta nos seus ouros pechisbeque, sempre com uma opinião a dar e a explicar, nos encontros mensais que lhe substituíam as antigas idas ao teatro.

Paloma era a gata cinza vaidoso do r/c, roçava pelas janelas e piscava os olhos verdes a quem se abeirasse. Pousava para fotografias dos mais curiosos em poses encenadas e era a melhor companhia do Luís Carlos, moço de 30 e poucos anos, que vestia casacos a condizer com sapatos e acordava com o cabelo penteado. Rosnava aos vizinhos, o que muito agradava a Paloma. Na última reunião levou Paloma como acessório, eram 2 pavões a pôr à prova o resto da fauna do prédio.

Hoje a reunião de condomínio era sobre o 1º andar, tinha morrido o Bernardo, um rafeiro despenteado e dorminhoco, e o Sr. Pereira foi levado pelos filhos para um lar. No próximo Março, o apartamento ia ser ocupado por um, já apresentado Boxer, o Lucky, cheio de genica, que subia escadas de dois em dois degraus e usava o elevador sem babete, o que muito incomodava Ozzy e Nina, disturbava Paloma ao ponto de ter subido cortinado a cima na visita anterior de Lucky e Lucas e, irritava Mariazinha de tal maneira que, até o Professor Aníbal de Azevedo lhe tinha ido bater à campainha só para ver se a Dona Augustinha estava com os 5 sentidos porta dentro.  

E ali estavam eles, 7 condóminos no hall do prédio prontos para ferrar dentes, que isto não pode ser! Agora um Boxer num apartamento, nem pensar! Baba no elevador, pegadas nas escadas?!

A primeira a dar sinal de intransigência foi Mariazinha, claro, dando o mote à Dona Augustinha para botar faladura e prontamente se recusar a fazer as limpezas sempre que a sujidade fosse mais que a normal dos 7 inquilinos. O que eles precisavam era de um peixinho dourado, que toda a gente sabe que faz falta na vida de uma casa. Não era de um Boxer.

Ozzy e Nina deram sinal de contentamento com as caudas e o Professor Aníbal de Azevedo levantou as sobrancelhas, como quem nunca tivesse pensado no assunto assim, mas não discordasse.

Paloma ronronava e Luís Carlos achou que, apesar do Lucky estar fora de questão, um peixinho dourado não fosse a melhor opção para a Paloma. Sugere um Gato dos Bosques da Noruega para equilibrar o prédio, também não suja escadas e elevadores e sempre fazia subir o prédio na qualidade dos moradores.

Ninguém se opôs e portanto era arranjarem o felino de carteira recheada que adquirisse a morada em vez de a arrendar. Estratégias traçadas e time limit de 3 semanas para que o negócio estivesse fechado.

Pela primeira vez aqueles 7 concordavam e agiam em conjunto. Perfeito!

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