eu sou a viscondessa

"- Ammu, quando se está feliz num sonho, isso conta?"

                                                  Arundhati Roy

Sabes o que me apetecia agora?

Abrir a porta e ver-te do outro lado com o teu sorriso malandro e brilho nos olhos.
Puxar-te para dentro,
empurrar-te contra a porta,
agarrar-te na cara,
beijar-te sem respirar,
despir-te a t-shirt deixar-te despenteado,

sussurrar-te ao ouvido que não quero saber,

dedilhar-te as costas,
morder-te o peito,
enfiar as mãos nos teus calções,
deixá-los cair,
segurar-te com uma mão à frente e outra atrás, lamber, beijar, encher a boca de ti,
largar-te,
virar-me para o espelho,
desapertar o soutien,
agarrar-te nas mãos,
trazê-las ao meu peito,
deixar cair a cabeça para trás, no teu ombro,

sussurrar-te que não quero saber,

descer-te uma mão pela minha barriga,
fazê-la escorregar para dentro da renda que sobra sobre a minha pele,
deixar-te entrar e arquear as costas,
fechar os olhos,
voltar-me para ti,
beijar-te o pescoço,
puxar-te o cabelo,
morder-te a orelha,
pressionar-te os ombros, para que te sentes no chão frio,
sentar-me em ti, quente,
dançar a música cara de safado em cima das tuas pernas,
olhar-te nos olhos e saber que naquele momento tu estás ali,
levar-te comigo,
sorrir no teu sorriso,
olhar-te nos olhos,

dizer-te que (não) gosto de ti,
mas que não quero saber,
abraçar-te a saber o que é,
só uma noite…

Da minha janela

Não me lembro de te ter aberto a porta, mas lembro-me bem do dia em que disseste que não ias mais entrar, disseste-o de costas voltadas ao fundo das escadas, o meu grito ecoou em todos os degraus.

Fiquei na janela a ver-te fugir, chorei-te no vidro frio, ralhei com o breu do tecto, e ofereci o que tinha para te dar ao vento.

Larguei as cortinas brancas, voltei para dentro e as paredes moviam-se lentamente umas contra as outras, acho que até a rua ficou mais larga, abriram-se rachas nos cantos do quarto e a chuva pingava-me a cama, ensopou-me a almofada e o teu cheiro esvaiu-se dos lençóis que apertei contra o peito, ficou só um pano que não tapa os pés, enrolei-me para que voltasses, para que te arrependesses, para que, da mesma forma que o sol desapareceu, brilhasse.

Sempre tive medo de noites epilépticas, quando os raios acertam em alguém mudam-lhes a vida para sempre e essa foi uma noite de inverno. A ti, entrou-te pelo peito, mudou-te a frequência, a mim, queimou-me os pés já doridos de outras estações.

Às vezes passas à minha casa, tocas à campainha, e eu olho para cima para ver a cor das nuvens e deixo-te entrar, ficas sempre na soleira da porta e o vento sopra cada vez mais forte, levou o sorriso que eu via nos teus olhos, despenteou-te a vida e eu continuo a ver-te partir através da minha janela. 

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