eu sou a viscondessa

"- Ammu, quando se está feliz num sonho, isso conta?"

                                                  Arundhati Roy

Pernas, Cabeças e Pés

Pernas com saias, calças e calções
Fazem personagens para todas as estações.
Peles brancas, bronzeadas e com escaldões,
Dão vida a várias ocasiões.

Há as que correm, que andam e as que se arrastam,
Mas todas se aproximam mais do que se afastam.
Mexem-se e dançam sincronizadas,
Com ou sem música raramente estão paradas.

São casais pirosos que combinam cores
E depois há um louco que usa tecidos com flores.
Desenham sorrisos nos joelhos com fios e rasgões,
Trazem identidade a cabeças e corações.

Percebemos mentalidades nos sapatos,
Em verniz, rasos, de pele ou de saltos
São a forma inversa dos retratos
São histórias que percorrem asfaltos

Sem serem, são expressão,
São base sem admiração.
Toda a gente espera uma combinação,
E depois lá aparece alguém que diz “não!”

Dormem juntos mas separados,
Que individualidade não é traição.
Há quem confunda estarmos cansados
Com o fim de uma relação.

Já não sei se falo de pernas,
Se falo de pessoas através,
Falo das cores e das roupas,
Falo de cabeças e de pés

Palavras

Havia demasiadas perguntas na cabeça dela e, uma delas, era se as palavras podiam sentir-se solitárias.
Sem pensar muito dizia que não. Que as palavras aparecem sempre acompanhadas umas das outras. Uma palavra sozinha não tinha vida.

Bidé

Assim sem mais nem menos não era nada.
Para que serve uma palavra sozinha?

A olhar para o rio parado, pensou para que servia um rio que não ia para nenhum lado? Deixava de ser rio, podia ser outra coisa qualquer mas rio não. Tal como a palavra sozinha, podia ser outra coisa qualquer, mas não era palavra. A palavra precisa de outras palavras, mesmo o sim e o não só têm valor precedidos de outras palavras.

E apareceu uma onda no rio.

As palavras solitárias não são as que estão sozinhas, são as que não se sucedem.

E outra onda apareceu no rio, molhou-lhe os pés.
Era fria e solitária como sentia as suas palavras.

Estavam juntas e sucediam-se, não havia razão para ter frio nos pés. Os rios não têm ondas, está algo mal!
As palavras não são rios parados, as palavras são ondas, não são solitárias. Mas ela era! Então as palavras solitárias são das pessoas que também são, pessoas que não se sucedem, que não passam a palavra, que as guardam como aquele cimento guarda o rio parado.

E aquelas ondas?
São palavras que se interrompem, que aparecem sem sentido, assim do nada…

Bidé

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