Bloqueio

ilustração de @mouro.ao

Estou com um bloqueio mental gigante, tenho tanta coisa na cabeça que parece um armário de adolescente, camisolas em cima de calças, vestidos embrulhados, camisas a escorregar de preguiça dos cabides, com a roupa de inverno a acasalar com a de verão. Ninguém consegue abrir a porta e tirar uma peça, aquela peça, sem vir tudo de avalanche para o meio do chão. Só mesmo eu, adolescente desarrumada, que de manhã, com perícia de cirurgiã, lá consigo vislumbrar a t-shirt azul que sempre uso com as calças cinzentas que tenho vestidas. 

Em todos os despertares, de cabelo desarrumado e a decidir o que vestir, prometo a mim mesma que de hoje não passa. Que já não sei onde estão as leggins pretas, que tanta falta me fazem para estes dias de casa. Sei que estão ali, naquele cubículo, naquela caixa embutida na parede, mas onde? 

O pôr do Sol amolece o corpo e fica para amanhã.

O tempo é contado, tenho mais peças de roupa que minutos disponíveis.
De cada vez que tento cumprir a promessa e a necessidade de colocar ordem nas prateleiras e gavetas, respiro fundo, tento desligar o cérebro que me conta o tempo tão alto que tremo das mãos de susto, que deixo cair cada peça de roupa em que pego, que dobro e desdobro a mesma camisola que teima em ficar vincada, que faço montes por estação, por ocasião e não consigo decidir onde é que ponho os básicos de algodão. 

E, no meio desta azafama de tecidos, com o coração a bater que nem sino da igreja a chamar para a missa, acabou o tempo. Sim o tempo acaba, acaba para adolescentes, adultos e para as pessoas sem idade também. É hora de mudar fraldas, fazer papas, cantar, dançar, conversar. Fica o armário meio despido e a cama bem aconchegada de fabricos made in Bangladesh.

Este meio feito é vontade, é tentativa, é uma luta repetida, que um dia vai virar conquista. Mas é correr uma prova de estafeta onde o testemunho se passa ao mesmo, muda de mão, de pé, de olho, de pulmão e acaba de pupilas dilatadas, de poros transpirados e de pernas cansadas deitadas no edredão, com a roupa no chão.

Quando o Sol nascer, os olhos se abrirem, o espreguiçar der o mote para levantar, lá está o campo de batalha com tecidos feridos e aleijados, à espera de colo cuidado que os levem de voltem à base de madeira. 

Volta tudo para a mesma divisão. Uma prateleira escolhida para os sobreviventes dobrados e o resto, que se entendam, lá fecho a porta do roupeiro de novo. Pelo menos, à vista desarmada estão os destroços recolhidos. 

Amanhã tento de novo.

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