Sonho meu

Ilustração de @mouro.ao

A minha mãe adora praia, os grãos massajam-lhe a sola dos pés, esfoliam-lhe o formato dos sapatos, se calhar por isso sempre achou importante termos também acesso a esse desformatar de acessórios.

O meu pai dispensa o frio, enrijece-lhe os músculos e as acções, faz-lhe lembrar a infância de neve, linda mas dura, e às vezes o que fica não é a beleza que nos entra pelos olhos, mas o “ ‘tás bonito ‘tás” que entra pela pele. Apesar de ser do norte sempre achou que nós ganharíamos muito mais com as temperaturas do sul.

A junção parecia perfeita, não fosse a praia favorita da minha mãe ser a fria Nazaré de inícios Junho, que toldava vontades ao meu pai. E o sol libertador do fim de Julho do meu pai fazer desmaiar a minha mãe.

Ouviram falar de um microclima além do Tejo, de dia com calor suficiente para que as sardinhadas se cozinhassem com um sorriso paterno e, fresco no ponto, para que o equilíbrio vertical da minha mãe não fosse derretido. Felizmente ambos gostavam de adormecer sem ficar colados aos lençóis e portanto, à noite estavam sempre de acordo.

Foi com a descoberta deste sítio mágico que Verão após Verão fui mudando de pele, largando as finas escamas da lezíria e crescendo todos os anos uns centímetros feitos de sal, pinheiros e liberdade.

Sempre tive que retornar aos campos de arroz e melgas, ao sítio onde não havia Djambes, porque, diziam eles, se fosse viver para lá não teria onde ir passar férias! Agora sei que me enganaram. E com esse engano fui ficando, já sem pele ribatejana, escolhi o sítio com mais luzes céu, sem perceber que tinham substituído as estrelas por candeeiros.

De manhã, as torradas sabem-me muitas vezes a croissants quentinhos com doce de morango, e quantas vezes subo a rua e fecho os olhos e inspiro com toda a força que tenho, ver se o cheiro de mar e dunas me chega aos pulmões, e encurta estes 180km de distância.  E chega muitas vezes, chega em forma de memória olfactiva, tão real que passo o resto do dia lá, as paredes de dentro são as mesmas, mas as de fora tenho a certeza que lhes cresceram escamas azuis a debruar recantos numa junção celestial de branco e azul.

No outro dia adormeci convencida que estava lá. Acordei baralhada, por não estar!

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