A hora dos contentes

A preguiça é um bicho de braços compridos e sangue quente. É um animal perigoso, principalmente por ser dócil. O facto de ser da família do camaleão origina a quem passa a curiosidade de se aproximar. Faltam-lhe as cores vivas que gritem cautela. Hoje olhamos a invejar-lhe a calma, noutro…

Não estás aqui

Acabei de esticar o braço e não estás aqui, e agora apetece-me um abraço que não vou ter, apetece-me aninhar-me na tua pele, cheirar-te o pescoço e ver-te sorrir, apetece-me que me vires ao contrário, apetece-me virar-te ao contrário, apetece-me ver esse brilho nos olhos, ter essas mãos a passear…

Nunca voltes onde foste feliz

Um dia ouvi dizer “nunca voltes onde foste feliz”, sempre achei essa frase batida sem sentido. Devemos então voltar onde o coração se partiu? Dizem os entendidos que é mais fácil guardarmos os momentos maus do que os bons, e agora não podemos revisitar as cores e os cheiros dos…

O dia mais longo

O despertador tocou à hora marcada mas, em vez de despertar, deu aval para despedir o lençol branco bordado e o cobertor castanho terra. Estava acordada fazia tempo, não sabia bem quanto tempo, tinha-se proibido de olhar para a luz cega do ecrã, e em vez de minutos contava respirações,…

Um Anjo à minha mesa

Nunca percebi porque é que aqui faz sempre vento, é como se no topo das cinco ruas que desembocam neste largo de calçada branco sujo, existisse uma janela aberta e de lá viessem ventos de norte, que competem em intensidade e bravura. Deve ser por isso que as casas aqui…

Online (EP.18)

Perdi-me nas horas, perdi-me nos scrolls, perdi-me no feed, perdi-me na tua vida e perdi a minha por uns segundos, minutos, horas. Não tenho tempo, não tenho 5 minutos para olhar para dentro, não tenho tempo para ler, para fazer umas corridas, não tenho tempo para nada, mas vi-te ali…

Relações Tóxicas (EP.17)

Ganhei vida com o seu olhar, era um castanho doce e avelã que me adocicava o cérebro e quebrava barreiras. Pegava ao colo todas as minhas inseguranças e embalava histórias e lágrimas com palavras de solidez. Era amor feito casa com mestria em receber. E no chão cresceram blocos para…

Aniversário (EP.16)

Eu tinha acordado com uma energia saltitante, era o meu dia de aniversário e isso fazia os meus olhos brilharem e abrilhantarem bancos de jardim, transeuntes, flores, pedras e prédios. Sou uma pessoa de pessoas e, como tal, fui para a esplanada do meu café e convidei quem se quisesse…

Autocuidado (EP.15)

Somos humanos, somos histórias, somos momentos, somos tempo! Muitas vezes achamos que somos doutores, secretárias ou pessoas a dias, achamos que somos pais, amigos confidentes, que somos chão, que somos contas bancárias, opiniões alheias. Esquecemo-nos que a parte não finda o todo. E o que é isto do todo? O…