Verde Oliva

“Estás linda nesse vestido verde oliva.”

Teresa olhava para o telemóvel, enternecida como se olhasse para o primeiro sorriso de um bebé.

Ouviu o telefone da clínica tocar e apressou-se a atender. Enquanto marcava mais uma consulta para o Dr. Tavares, sentiu um aperto no peito. Pedro dormia quando saiu de casa e, para não o acordar, tinha-se vestido na sala, ele não sabia que roupa tinha escolhido para aquele primeiro dia de Outono. Mais! Pedro trabalhava nos arrabaldes, não seria provável que a tivesse visto através daqueles vidros que ligavam o chão ao tecto e a separavam da movimentada D. João V.

Assim que desligou a chamada, voltou a abrir a mensagem, o número não fazia parte dos seus contactos, procurou na lista de clientes da clínica e zero correspondências. Com o corpo a tremer como se estivesse a passar o metro por baixo dos pés, ligou duas vezes, ninguém atendeu, nenhum voice mail.

Passadas três demoradas horas, pegou no casaco, na mala e no telemóvel e seguiu a descer a rua até à boca do metro. Estava vento e o cabelo insistia a entrar na boca, nos olhos e numa tentativa de o controlar sem deixar cair nada, nem tropeçar, esbarrou num homem de barba aparada e ouviu “Estás linda nesse vestido verde oliva”. Teresa sentiu o coração dar-lhe uma martelada no peito, virou-se, mas a rua tinha gente de mais, só lhe fixara os olhos, a barba e a voz. Nada disto se via de costas. Andou uns passos apressados, mas a inclinação da rua não condizia com os seus pulmões fumadores. Acabou por desistir e retomar o seu caminho.

Na porta de casa apagou o elogio. Entrou, viu o jantar no forno, abraçou Pedro e no desapegar daquele abraço ouviu, “Estás linda nesse vestido verde oliva”.